Não perca: dia 18 de fevereiro, às 19h, no Mezanino do SESC Copacabana, você tem um encontro marcado com Artur Azevedo, Eduardo Garrido, Tania Brandão e Diógenes Maciel
Um texto teatral perdido. Este é o grande valor do livro Pum! que agora chega ao mercado. A obra publica, pela primeira vez, a burleta Pum!, de Artur Azevedo e Eduardo Garrido, encenada em 1894. Apesar da montagem no século XIX, no Rio e em Lisboa, apesar da peça ter viajado por alguns estados brasileiros, apesar de uma remontagem adaptada para o público infantil em 1999, o manuscrito original desapareceu.
Parece natural que um texto com este título tenha provocado muito barulho – ou melhor, tenha atraído impulsos fortes para silenciá-lo. O tema central da ação é a visão cômica da Segunda Revolta da Armada, uma rebelião da Marinha que, a partir de 1893, em oposição ferrenha ao governo do Marechal Floriano Peixoto, decidiu atacar a cidade. Com o Rio de Janeiro submetido a múltiplos bombardeios, os habitantes ficaram com as vidas em desordem, precisavam correr e buscar abrigo para sobreviver.
Ainda assim, diante dos erros frequentes dos tiros disparados contra a cidade, a população buscava a orla, em especial a amurada do Passeio Público, na Lapa, então à beira mar, para apreciar o surpreendente espetáculo. Para o povo, cada disparo era um “pum!”, daí o título da peça. O humor carioca persistia, mesmo diante de uma situação absurda e de tantas perdas.
Os autores buscaram registrar o momento através de tiradas cômicas e inserções musicais, condição determinante para a definição da peça como “burleta”.
Portanto, trata-se de um texto escandaloso para os circuitos cultivados: não é de estranhar o seu desaparecimento. A versão publicada agora teve como base uma cópia xerográfica de uma outra cópia xerográfica pertencente ao crítico e acadêmico Sábato Magaldi (1927-2016). Um antigo manuscrito servira de base para a cópia feita pelo crítico. Neste ponto, o texto se revela um grande aventureiro: ele pertenceu ao ator Ângelo Labanca (1913-1988), que doou o raro exemplar para a atriz Fernanda Montenegro. Quando, em 1995, o crítico Sábato Magaldi foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, a atriz decidiu repassar o manuscrito para o novo acadêmico que, por sua vez, doou o original para o acervo da instituição e ficou apenas com uma cópia-xerox.
Infelizmente, na época, a Academia não protocolava as doações e os empréstimos. A ausência de registro da circulação de originais nas estantes acadêmicas levou à perda do rastro do texto – as normas da casa previam o acesso livre dos acadêmicos aos originais, como se fosse uma biblioteca coletiva. Não se sabe o destino que o manuscrito seguiu: as letras divertidas, um tanto esmaecidas, sobreviveram apenas na cópia xerox.
A edição enfrentou vários desafios. A qualidade de cópia da cópia do manuscrito tornou algumas passagens do texto difíceis de decifrar, outras até impossíveis. Mas o resultado geral, contudo, parece bastante bom.
Percebe-se claramente que o manuscrito viveu uma longa história. Entre as anotações difíceis de decifrar, estão as que sugerem que ele teria sido examinado pela Secretaria de Questura do Estado de Pernambuco e pela Diretoria do Teatro Santa Isabel do Recife, em 1896. Em 1921, teria sido representado no Theatro São Pedro, de Porto Alegre, pois há uma assinatura do “ponto” do teatro nas primeiras páginas. Todavia, nenhum documento a mais foi localizado a respeito destas encenações. A partir de marcas diversas perceptíveis no original, conclui-se que ele foi usado pelo “ponto” do Theatro São Pedro e, talvez, por “pontos” de teatros anteriores, quer dizer, ele era lido durante as apresentações pelo profissional incumbido da tarefa de soprar o texto, da “caixa do ponto” no meio do palco, para a orientação dos elencos. Na época, não era rotina de trabalho dos atores decorar os textos representados.
Estes dados, somados à publicação da peça, viabilizam uma nova empreitada, a realizar – um novo estudo, a respeito da fortuna cênica do texto, quer dizer, uma pesquisa profunda sobre a sua trajetória nos palcos, uma outra abordagem do original. Depois de tantas aventuras, o texto dado como perdido se apresenta aqui e tem futuro…
Esta edição conta com estudo de apresentação assinado por Tania Brandão, comentários do texto por Tania Brandão e Diógenes Maciel. A coleção de críticas publicadas nos jornais da época, as fotos de personalidades teatrais ligadas à montagem e da cidade do Rio de Janeiro sob o efeito da revolta, pesquisa desenvolvida pelos professores organizadores, completam o dossiê de documentos reunidos considerados relevantes para o estudo do texto.
PUM!
Burleta de Artur Azevedo e Eduardo Garrido
Organização de Tania Brandão e Diógenes Maciel
Edição Scriptorium/Papel da Palavra, Campina Grande, 2024, 228 p.
Preço de lançamento: R$ 50,00
Lançamento:
18 de fevereiro de 2025, das 19h às 22h.
Programação
Das 19h às 19h30: palestra ilustrada com Tania Brandão, sobre o processo de descoberta e edição do original, com mediação do professor Henrique Gusmão.
Das 19h30 às 22h – noite de autógrafos do livro.
Local: Mezanino Sesc Copacabana.
Rua Domingos Ferreira, 160. Copacabana.
Realização: