Ao chegarmos no Teatro Municipal Ziembinski, na Tijuca, para assistirmos O Anorak, escrito pelo canadense Adam Kelly Morton – que também é ator, produtor e professor -, e dirigido pela experiente Sueli Guerra, nos é sugerido a escolha de uma parte da plateia, para que seja dividida por gêneros que se reconheçam femininos – para o lado esquerdo -, e gêneros que se reconheçam masculinos – para o lado direito.

Já começamos com isso assim, a sermos afetados pelo espetáculo, por essa distribuição geográfica; que no decorrer dos primeiros momentos de cena, já conseguimos encaixar as lógicas que nos levaram para esse caminho. Uma escolha muito acertada pela direção, em uma encenação composta especialmente por uma equipe técnica toda feminina, e que conta apenas com o ator protagonista, como sendo o único homem hétero de toda a montagem.

Assim, aos poucos vamos percebendo o que representa este lugar, um lugar de espectador ativo, distanciado e que nos instiga à uma profunda reflexão. Abrindo os nossos horizontes para a conscientização do papel da mulher na sociedade moderna e contemporânea; o lugar que ela ocupa, e o tanto que os homens se empenham em manter viva uma desprezível opressão, e força bruta, que são deferidas covardemente contra elas. Esta configuração espacial, tornou possível também aproximar as mulheres, sozinhas na plateia, de um lugar de grande desconforto, ermo, escuro, sombrio e de vulnerabilidade. Criando com isso também um bom artifício de cumplicidade tóxica com o bloco de homens da plateia; onde se podia promover um certo movimento constrangedor da personagem diante das mulheres da plateia. Como que a personagem, em certos momentos, buscasse a afirmação e a aceitação de seus pares, no consentimento de suas violentas ações.

Tudo isso vai sendo alcançado, principalmente pela condução cirúrgica, e precisa, da encenação de Sueli Guerra, que auxiliada pela concepção de uma cenografia espacial elegante, em paleta de cores branca, bege e marrom, potencializa também a construção do universo que circunda as ideias e os pensamentos que antecederam o assassinato em massa de 14 mulheres na Escola Politécnica da Universidade de Montreal, em 1989. Ao investigar as origens do ódio do jovem protagonista vivido por Daniel Chagas, e expondo assim as fissuras da sua masculinidade, moldada pela rejeição, solidão e sentimento de inadequação que culmina na violência. 

O denso texto de Adam, é potencializado também pelo tom austero e propositadamente calculista da projeção cênica. Ela, com elegância, vai desenhando palavras, palavras partidas, palavras cortadas, trechos; que nos colocam em um lugar lúcido de espectador ativo, que sente o desconforto do olhar frio, e com doses de psicopatia da personagem central. Que narra em primeira pessoa a sua versão da história, e nos fazendo a ligar os pontos, através de sua vida pregressa, até chegar a cometer atos tão repugnantes e de extrema brutalidade.

O cenário vai sendo também construído diante de nossos olhos, em construções geométricas, assim como o é sinalizado no piso, por fitas. Nos aproximando também de linhas altamente calculadas, e do desenho de marcações de corpos, quando ocorre um homicídio. Auxiliadas também por uma luz recortada e pontual. Tudo isto nos coloca de forma observadora, onde vemos diante de nossos olhos a narrativa misógina do jovem vivido pelo ator Daniel Chagas, que expõe as frustrações da personagem com precisão física, e um meticuloso uso de palavras monocórdias.

O Anorak cumpre com presteza o papel da arte, ao colocar no centro da cena, tema tão espinhoso e altamente necessário! Tema tão atual que apenas o teatro, junto com a educação, tem o papel em dar luz, em ligar todos os seus holofotes! Não à toa que a intolerância destes ignóbeis brutamontes queiram sempre começar o desmonte da democracia pelas as artes; pois a arte incomoda, mostra, pontua e promove a discussão e a reflexão.

No mundo atual, onde vivemos uma gigantesca onda de narrativas da extrema direita, principalmente alimentadas nas terras sem lei do ambiente digital; vemos também uma grande profusão de misoginia, e de feminicídio. Onde os homens, se sentem cada vez mais homens, pelo simples fato de portarem armas de fogo, e substituírem assim, os seus problemas de fala, e de falo, por outro tipo de cartucho! Este sim, muito mais cruel, verdadeiramente feroz e absolutamente mortal!

Foto Aloysio Araripe

Serviço

Texto Adam Kelly Morton

Atuação Daniel Chagas

Direção Sueli Guerra

Estreou no dia 02 de maio de 2025, no Teatro Municipal Ziembienski – Rua Urbano Duarte, Tijuca (em frente ao metrô São Francisco Xavier).

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